LER OU NÃO LER: EIS A QUESTÃO

LER OU NÃO LER: EIS A QUESTÃO
“Nem Disney, nem Louvre. Prefiro os livros. É nele que aquela se torna cultura e este, ponto turístico”.
Discutir questões de gênero com Capitu. Elencar direitos humanos com Paulo Honório e Madalena. Questionar-se sobre a união homo afetiva com Riobaldo. Os personagens célebres da literatura incutem valores, despertam a ira, apoderam-se de verdades absolutas e nós, meros espectadores, limitamo-nos a escutar. Eis a vantagem da leitura.
Somos apassivados mais sujeitos da oração principal. Somos só ouvidos. Naquele momento, apenas ressoam os ecos, do filme produzido por nossa consciência. E talvez seja por isso e nisso que a leitura nos afeta. Tolerância e justiça, valores pouco ocupados por nossa mente (pois refrigerantes sabores cereja e desinfetantes com cheirinho de limão estão em evidência), ganham papel de destaque.
É com os livros que o caos se assenhora. As maiores pressões da vida, racionalidade e fidelidade, saem do centro das atenções. E no lugar delas há um cangaceiro apaixonado por um comparsa, uma escola de bruxos, um bilionário aos pés de uma virgem, a criação do mundo, a convivência atrelada ao inferno.
Os tons de cinza dão vazão ao colorido e ao preto e branco em segundos. O inferno são os outros e nós mesmos. Viver pode ser mais perigoso. O dia pode ser criado antes do sol. E olhar para trás pode fazer você virar estátua de sal.
Na literatura, ensaia-se a cegueira e inventa-se o Moréu. Nela há o crime e o castigo além de um médico que narra a vida de um encarcerado. Só lá o ódio ao filho eterno ganha sentido e o admirável mundo novo é reinventado a cada dia. Na prosa e na poesia imortalizam-se Marilias e Dirceus. Nelas é permitido que uma freira sofra pela perda de seu amante.
A vida é seca e o cachorro baleia. O sertão é uma grande vereda. Os círculos do inferno uma divina comédia. E a hora máxima da estrela, seu atropelamento. Choramos mais com Clarices do que com Marias. Até o bêbado se equilibra.
Nem Disney, nem Louvre. Prefiro os livros. É neles que aquela se torna cultura e este, ponto turístico.
Dom Casmurro? São Bernardo? Não. Quero o conjunto da obra. Fico com o filme que eu invento. Ler realmente é muito perigoso.
Candice Almeida (PR)
 





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